Economia

O Irão e a Armadilha de Tucídides

O Irão e a Armadilha de Tucídides

O comportamento do presidente Donald Trump em seu segundo mandato nos remete à Armadilha de Tucídides, um conceito geopolítico elaborado por Graham Allison em 2015, que aborda o risco estrutural de guerra quando uma potência emergente ameaça superar uma potência estabelecida. O temor de que a potência dominante seja substituída pela desafiante da Ordem gera tensões que muitas vezes resultam em conflitos, algo que Allison analisou em 12 dos 16 casos que estudou.

Naquele período, Allison questionou se a China e os Estados Unidos conseguiriam evitar a Armadilha de Tucídides. Segundo ele, “considerando a trajetória atual, uma guerra entre os EUA e a China nas próximas décadas não é apenas possível, mas muito mais provável do que se pode imaginar neste momento.”

Em 2012, durante a administração Obama, a então secretária de Estado Hillary Clinton mencionou pela primeira vez o “pivô para a Ásia,” reconhecendo a China como a principal ameaça à segurança dos EUA e, assim, conferindo prioridade à política externa das administrações subsequentes, embora com diferentes nuances discursivas.

Em 2017, a RAND Corporation divulgou um relatório sobre um conflito entre os EUA e a China, prevendo a vitória dos primeiros, assumindo que o confronto não escalaria para o nível nuclear. Embora há dez anos a previsão pudesse ser essa, hoje, definitivamente, não se manteria, mesmo contando Washington com o apoio de aliados no sudoeste asiático. Os EUA teriam dificuldades em sustentar uma guerra de alta intensidade prolongada no Pacífico ocidental, a mais de 10 mil quilômetros de sua costa oeste.

Os estrategistas norte-americanos reconhecem que a oportunidade de infligir uma derrota militar à China foi perdida. A maneira de submeter a potência desafiante precisaria ser revista. A ameaça constante do uso da força para forçar a submissão de Pequim havia se tornado anacrônica. A nova estratégia consistia em desestabilizar a coligação anti-hegemônica russo-chinesa, inicialmente degradando as capacidades de seu elo mais fraco, que requereria uma mudança de regime em Moscovo, colocando no poder segmentos da elite russa favoráveis a novas alianças e parcerias estratégicas.

Essa operação se desenrolou em três frentes, com a Ucrânia desempenhando um papel crucial no projeto. Essa perspectiva deve ser utilizada para interpretar os eventos promovidos por Washington na Ucrânia no século XXI – a revolução laranja em 2004 e o golpe de estado de Maidan em 2014, que destituiu um presidente democraticamente eleito – para elevar ao poder agentes hostis a Moscovo.

Esses desenvolvimentos criaram condições objetivas e subjetivas que culminaram na invasão da Crimeia, em 2014, e da Ucrânia, em fevereiro de 2022, forçando a Rússia a um conflito de desgaste indesejado. Após quatro anos de guerra, Washington ainda não conseguiu exaurir a Rússia nem colocar uma “Delcy Rodriguez” no Kremlin. Em vez de criar fissuras na coligação, as ações de Washington a solidificaram, transformando-a em uma parceria estratégica.

A execução desse projeto hegemônico não avançava como desejado por Washington. No seu primeiro mandato, Trump implementou políticas comerciais agressivas contra a China, que seu sucessor Joe Biden não reverteu. Em seu segundo mandato, Trump intensificou suas ações, tentando sem sucesso submeter a China através de uma ofensiva tarifária sem precedentes.

No entanto, ainda havia uma estratégia a ser explorada. Diante da frustração em dividir China e Rússia para derrotar seus opositores separadamente, Washington tinha a opção de jogar a carta iraniana. Com a colaboração de Israel, poderia atuar sobre o terceiro pilar da aliança anti-hegemônica, significativamente afetada por décadas de sanções.

Recordemos o que escreveu Brzezinski: a maior ameaça à hegemonia norte-americana é a formação de uma aliança anti-hegemônica envolvendo China, Rússia e Irã, que se estava consolidando. Seria uma vitória estratégica significativa para Washington inserir o Irã em sua esfera de influência, dado que o país é crucial para as estratégias tanto chinesa quanto russa. Uma mudança de regime em Teerã representaria uma golpada devastadora nessa aliança anti-hegemônica. Se obtivesse sucesso, não apenas infligiria uma derrota estratégica à China e à Rússia, como também colocaria Washington em uma posição de vantagem na disputada ordem mundial, reabrindo as portas à unipolaridade como ocorreu após a dissolução da União Soviética.

Os EUA enfrentavam agora uma aliança desafiadora a sua posição dominante, cujos membros representavam desafios distintos de acordo com suas capacidades estratégicas. Enquanto com a China as ferramentas utilizadas pelos EUA até o momento não incluíam a confrontação militar direta — a força contra a China se tornara algo relativamente impensável —, com a Rússia não se poderia dizer o mesmo, pois esta vinha enfrentando uma confrontação militar indireta através do proxy ucraniano, que é apoiado militarmente, além de uma confrontação direta com o Irã.

A incerteza quanto ao futuro do conflito militar com o Irã cresce, e a vitória militar de Washington parece cada vez mais distante. Os ataques iranianos forçaram as forças americanas a abandonar suas bases no Oriente Médio. O preconceito e a arrogância ideológica impediram os líderes militares norte-americanos e israelitas de reconhecerem o nível de preparação de Teerã para a guerra. Apenas isso explica a ingenuidade na expectativa de uma vitória fácil e rápida sobre o Irã.

O Irã começou a se preparar para o embate que se arrasta há quatro décadas, iniciando em 1984, ainda durante a guerra com o Iraque, quando enviou treze oficiais à Síria para aprender sobre algo que ninguém lhes venderia, dando início à construção, a partir do zero, de uma capacidade balística própria, primeiro através da reversão tecnológica e, posteriormente, mediante programas de pesquisa e desenvolvimento nas universidades.

Os eventos no campo de batalha após quatro semanas de conflito, cada vez mais desfavoráveis à aliança israelo-americana, levantam duas questões essenciais. Qual será a reação de Trump quando, sem espaço para recuar, não conseguir mais ocultar a derrota estratégica e a sua ambição hegemônica ficar irremediavelmente comprometida pela aventura militar contra o Irã? Qual será a resposta de Netanyahu ao se convencer de que sairá derrotado desta confrontação, considerando que não é um ator político racional e que sua ação é guiada por princípios escatológicos?

A combinação de um decisor imaturo em Washington, com outro motivado por crenças divinas em Tel Aviv, cria um ambiente propício a uma grande conflagração. Não é por acaso que já surgem, no espaço público, comentaristas associados à embaixada de Israel defendendo abertamente o bombardeio nuclear do Irã.

Sob outro enfoque, a Armadilha de Tucídides pode nos auxiliar a compreender melhor o momento atual, não como um confronto direto entre a potência hegemônica e a potência desafiante, mas como uma antecâmara deste conflito. O tamanho dos danos reputacionais e geoestratégicos decorrentes de uma previsível derrota norte-americana pode ser inaceitável para Washington e, consequentemente, para Tel Aviv. Essa situação e a conhecida irracionalidade desses dois atores levantam a probabilidade de que optem por uma solução de soma negativa. Diante da ameaça que isso representa para a humanidade, a apatia de certos atores internacionais em relação à possibilidade de um desfecho dramático para todos é surpreendente.

Pat Pereira

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