Como o gaslighting engana o cérebro e faz você duvidar da realidade
O gaslighting pode acontecer com qualquer pessoa que confie na pessoa errada, afirma um pesquisador da Universidade McGill.
Willis Klein, candidato a PhD no Departamento de Psicologia, fez parte de uma equipe da McGill e da Universidade de Toronto que desenvolveu um novo modelo teórico para entender como manipuladores conseguem fazer suas vítimas questionarem seu senso de realidade ao longo do tempo.
Embora o gaslighting tenha sido um tema popular de discussão na esfera pública nos últimos anos, segundo o pesquisador, ainda não foi investigado de maneira abrangente do ponto de vista científico.
Klein é o autor principal de um artigo que sugere que o gaslighting pode ser visto como um processo de aprendizado, utilizando o conceito de minimização do erro de previsão (PEM). O PEM descreve como a mente mapeia as informações recebidas do mundo e busca, com base nessas informações, prever o futuro, ajustar suas expectativas e reagir ao ambiente. Até agora, o gaslighting tem sido analisado principalmente através de uma lente psicodinâmica, mas essa estrutura analítica não é mais amplamente utilizada na psicologia científica na América do Norte, disse ele.
Klein realizou esse trabalho como membro do Laboratório de Afiliação e Prosocialidade da McGill, liderado pela professora Jennifer Bartz. Suzanne Wood, da Universidade de Toronto, também fez parte da equipe de pesquisa. Os três são co-autores do artigo.
Gaslighting como um processo de aprendizado
“Quando você confia ou ama alguém, espera que essa pessoa se comporte de uma maneira particular. Os gaslighters, em nossa visão, estão se comportando de uma maneira atípica, que é um tanto surpreendente, e estão aproveitando essa surpresa para direcionar o aprendizado das pessoas que visam,” explicou Klein.
Além de se comportar de uma maneira que viola suas expectativas, um gaslighter, segundo o pesquisador, sugerirá que a causa de sua surpresa tem a ver com sua compreensão geral da realidade, fazendo com que você se sinta “epistemicamente incompetente”.
“Isso se repete várias vezes, até que a vítima realmente integre a ideia de que não tem uma boa compreensão da realidade,” afirmou Klein.
O papel da confiança e das pessoas próximas
O modelo também se baseia na ideia de que dependemos dos outros – especialmente das pessoas próximas – para formar nosso senso de eu e de realidade. Isso, combinado com a visão do gaslighting como um processo de aprendizado, significa que qualquer um pode se tornar vítima de gaslighting, segundo Klein.
“Em nosso modelo, não há necessariamente nada específico sobre a vítima de gaslighting que a torne particularmente vulnerável a isso. Em essência, pode acontecer com qualquer um, desde que confie na pessoa errada,” explicou.
Klein disse que acredita que investigações futuras sobre esse tema poderiam revelar que algumas características pessoais podem afetar a suscetibilidade de uma pessoa a ser gaslitted, como certos estilos de apego ou um histórico de trauma. Ele espera que futuras pesquisas possam validar vários componentes do modelo e levar a um melhor suporte para pessoas que foram vítimas de gaslighting.
Sobre o estudo
“Uma Estrutura Teórica para Estudar o Fenômeno do Gaslighting,” de Willis Klein, Suzanne Wood e Jennifer A. Bartz foi publicado na Personality and Social Psychology Review.
A pesquisa foi apoiada pelo Fonds de Recherche du Québec – Société et Culture (FRQSC), o Conselho de Ciências Naturais e Engenharia do Canadá (CRSNG) e o Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanas do Canadá (SSHRC).





