Seguros Privados Elevam em 39% a Probabilidade de Consultas Fora do Serviço Público
Um novo estudo da Nova SBE revela que ter um seguro privado aumenta em 39 pontos percentuais a probabilidade de buscar atendimento fora do sistema público. Apenas 4,2% da população opta pelo privado devido à falta de médico atribuído no SNS.
Contrariando a percepção comum, o principal motivo para a procura de médicos de família no setor privado em Portugal não é a escassez de vagas no Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas sim a presença de coberturas de saúde suplementares, como seguros privados ou subsistemas (ADSE, ADM). Esta é a conclusão central do relatório elaborado pelos investigadores Carolina Santos e Pedro Pita Barros no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social. Os dados, coletados através de inquéritos realizados entre 2023 e 2025, mostram que a escolha pelo setor privado é influenciada pela capacidade financeira e preferência individual, não apenas por uma falha na oferta pública.
O estudo mede o impacto de diferentes fatores na decisão de buscar atendimento no setor privado. Assim, a posse de um seguro de saúde privado aumenta a probabilidade de utilização do setor em 39 pontos percentuais. Os subsistemas privados acrescentam 24,5 pontos percentuais, enquanto a ADSE contribui com um aumento de 15,2 pontos percentuais.
Por outro lado, a falta de médico de família no SNS só eleva a probabilidade em 6,3 pontos percentuais.
Isso significa que o impacto de ter um seguro privado é cerca de seis vezes maior do que o impacto da falta de médico atribuído no serviço público. Prova disso é que, entre os 14,1% de adultos que procuraram o privado em 2025, 70% possuíam médico de família no SNS, optando pela “dupla cobertura”.
A pesquisa destaca que o acesso ao setor privado está fortemente relacionado ao status socioeconômico. À medida que aumentam a renda e a estabilidade financeira, cresce a probabilidade de adquirir um seguro, o que, por sua vez, facilita o acesso ao privado. Em contrapartida, a condição de saúde (necessidade clínica) tem um impacto insignificante nessa decisão.
O Algarve (19,3%) e a Grande Lisboa (16,8%) estão na vanguarda da procura pelo setor privado. No entanto, mesmo em áreas com alta cobertura do SNS, como o Norte Litoral e o Grande Porto (onde mais de 93% da população tem médico atribuído), os níveis de utilização do privado permanecem elevados, reforçando a ideia de que o SNS não é o único fator determinante.
Para Pedro Pita Barros e Carolina Santos, esse cenário sugere que o aumento da adesão a seguros de saúde está criando um hábito de consumo no setor privado que dificilmente voltará ao público. “Não se espera que uma maior cobertura de médicos de família no SNS reduza significativamente a atuação dos médicos de família no setor privado”, afirmam os investigadores, sugerindo que as preferências pessoais e a conveniência financeira prevalecem sobre a oferta estatal.




