Economia

Pedro Dominguinhos reconhece: PRR está a aquecer o mercado

"Pedro Dominguinhos reconhece: PRR está a aquecer o mercado"

O presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) alerta que prazos curtos e a falta de mão de obra estão elevando os preços na construção civil.

Pedro Dominguinhos destaca que, apesar das várias vantagens do PRR para o país, a execução do plano está a provocar um aumento no preço-base das obras em função da “pressão do tempo e da escassez de mão de obra”.

Em entrevista ao Jornal Económico, o economista admite que o mercado, especialmente o da construção, está se aquecendo, o que reflete nos custos finais no setor habitacional.

Esse aumento também é influenciado por “outros fenómenos não relacionados ao PRR”, como a atração de novos residentes e o turismo.

Essas elevações nos custos têm levado alguns possíveis beneficiários do PRR a desistirem de suas candidaturas. “Algumas entidades decidiram não seguir em frente” ao perceberem os custos e a dependência de financiamentos que precisavam angariar, o que levou à insustentabilidade financeira dos projetos, menciona Pedro Dominguinhos. Em alguns casos, “o financiamento do PRR, mesmo sendo integral, não cobrindo nem 50% das obras”.

“Vários concursos ficaram desertos”

Além dos atrasos nos pagamentos e questões burocráticas, há um conjunto de fatores que gera incertezas, resultando em desistências por parte de empresas, instituições particulares de solidariedade social (IPSS) e misericórdias que não conseguiram concretizar adjudicações. “Houve vários concursos que ficaram desertos”, lamenta Pedro Dominguinhos.

Um exemplo disso é uma casa da misericórdia que, com apoio da câmara municipal, lançou um concurso três vezes e, ao final, percebeu que, quando poderia adjudicar, o prazo do PRR já havia passado. Desistiram do investimento, pois não encontraram empresas de construção dispostas a realizar a obra. E situações semelhantes ocorreram com outros projetos, destaca o responsável pela supervisão do PRR.

Os próximos anos não prometem alívio nesse aspecto: “Depois do PRR, será que haverá um ajuste nos custos de construção? Tenho sérias dúvidas”, afirma o presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento, apontando que “o volume de obras públicas e privadas é tão elevado que dificuldades de retorno a curto prazo são esperadas”, considerando as atuais condições econômicas. Como exemplo, cita o preço do aço, que mesmo com a redução após o pico, não voltou aos níveis anteriores à invasão da Ucrânia, representando uma “alteração estrutural” no mercado.

Em algumas situações, questiona se, sem o financiamento do PRR, as entidades públicas realizariam as obras em questão. “Estamos aceitando custos que em condições normais não aceitaríamos, dada a pressão do prazo”, com a maioria dos investimentos a precisarem ser concluídos até 31 de agosto.

A competição por mão de obra se amplia além das fronteiras nacionais, com outros PRR europeus também demandando mais trabalhadores. Existe uma “escassez no mercado europeu da construção” que gera pressões adicionais.

Por outro lado, o PRR “permitiu explorar diversas soluções e garantir que, do ponto de vista econômico, elas são rentáveis e sustentáveis”, como a construção modular: “Não tenho dúvidas de que conseguiremos oferecer respostas mais rápidas e em maior escala na habitação – mais baratas, já é uma incerteza”.

Pressão da mão de obra por mais cinco anos

Em um contexto de restrições à entrada de imigrantes não qualificados, o Governo e as confederações empresariais estão promovendo um acordo para agilizar a integração regulada de trabalhadores, mas até agora “chegaram pouco mais de mil pessoas desde abril, diante das necessidades identificadas de 80 a 90 mil apenas no setor da construção. É uma gota no oceano”, afirma Pedro Dominguinhos. Assim, temos um “risco sistêmico na economia portuguesa”.

“Não estamos gerando natalidade suficiente e em várias áreas não estamos conseguindo fornecer ao mercado a quantidade necessária de profissionais com as competências exigidas”, observa o economista.

A situação é preocupante, pois “as demandas por mão de obra não diminuirão”, devido ao “pipeline de obras públicas pós-PRR” previsto para habitação e escolas, entre outros. Para se ter uma ideia, estão programadas remodelações em 237 escolas nos próximos anos, “muito além das do PRR”, além de “mais de 30 mil casas para construir ou reformar”. E ainda há todo o plano de infraestrutura ferroviária – com a alta velocidade – e a construção de vários hospitais.

“Portanto, haverá pressão nos próximos, pelo menos, cinco anos”, assegura Pedro Dominguinhos. “E não estou considerando o aeroporto, pois ainda não há concurso público, nem os novos metrôs e BRT (metrobus) que serão implementados nas várias cidades do país”.

Pat Pereira

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