Incentivos para Fomentar o Investimento da Poupança
A poupança em Portugal continua acumulada nos bancos, perdendo valor. O presidente da APFIPP aponta que a falta de literacia financeira é um problema, mas destaca principalmente a ausência de incentivos que tornem as alternativas de investimento mais atraentes. Não é necessário reinventar a roda; já existem soluções testadas em outros países. Ele alerta para a falta de atenção ao desenvolvimento dos sistemas de pensões, que pode resultar em consequências financeiras significativas no futuro.
Os fundos de investimento têm apresentado resultados significativos. Há espaço suficiente para continuar a crescer ou estamos a observar sinais de sobrevalorização? Acreditamos que sempre existe oportunidade para investir no mercado de capitais, embora isso dependa do perfil de cada investidor. Recomenda-se que o investimento seja feito com um horizonte de prazo mais longo, evitando as compras e vendas instantâneas. Nessa perspectiva, acreditamos que o investimento a longo prazo sempre compensa.
Ainda que haja expectativas de queda no mercado a curto prazo, não possuo uma visão clara sobre isso. Apesar das conversas em torno de uma bolha impulsionada pela inteligência artificial, notamos uma economia americana robusta e alguma força na economia europeia. Ao analisarmos os fundos de investimento, identificamos constantemente oportunidades, com poucos sinais de preocupação. Mesmo que o mercado enfrente uma queda amanhã, continuo a acreditar que o investimento em fundos e no mercado de capitais é viável e não deve ser monitorado diariamente. A inflação, que está mais controlada em relação aos picos anteriores, não é um motivo para os investidores se afastarem do mercado.
Com a diminuição das taxas de juro, o apetite pelo risco tende a aumentar. O que isso implica? Quando a inflação aumenta e as taxas de juro sobem, isso pode gerar mudanças nas decisões de famílias e empresas em relação às suas poupanças, atraindo-as para depósitos a prazo. Entretanto, mesmo com taxas mais altas, é provável que os rendimentos estejam abaixo da inflação, resultando sempre em perda. Reconheço que o aumento das taxas pode seduzir as famílias, mas a atual diminuição facilita o interesse em investimentos alternativos mais vantajosos.
O investimento deve ser sempre visto sob uma ótica de longo prazo, na medida do possível, porque a tendência nos mercados é de valorização ao longo do tempo. Embora existam pessoas que optem pela gestão diária de seus investimentos, isso deve ser reservado a profissionais. Para investidores sem experiência, recomendamos horizontes mais longos, ajustando os ativos ao perfil de risco. Por exemplo, uma pessoa jovem pode optar por ações e mantê-las por 10 ou 20 anos, ao passo que alguém mais velho pode preferir ações e obrigações, com menos volatilidade. Recomendamos que uma parte do patrimônio de poupança esteja sempre exposta ao mercado de capitais.
As famílias continuam preferindo depósitos bancários. O que falta para que considerem outras opções? Duas coisas são necessárias: incentivos e literacia. Um exemplo paradigmático é o 401k americano, que, iniciado nas décadas de 1970 e 1980, acumula trilhões de dólares investidos em mercados de capitais, com um impacto significativo e vantagens fiscais. A percepção da aversão ao risco dos americanos está, em grande parte, ligada à sua exposição através do 401k.
É fundamental que existam estímulos para levar as pessoas ao mercado, especialmente em um momento em que as empresas europeias precisam de capital. Necessitamos desenvolver os pilares dois e três da segurança social. Os incentivos, que podem incluir benefícios fiscais ou alterações na tributação de alguns rendimentos, são essenciais. Um exemplo disso aconteceu na Suécia com a conta ISK, que proporcionou uma mudança na forma de tributação e atraiu muitas famílias para o mercado.
Além disso, a literacia financeira é crucial, mas pode ser abordada de maneira mais simples. Um aspecto importante a ser trabalhado pelos governos é a conscientização em relação à evolução do primeiro pilar da segurança social e à redução da taxa de substituição prevista, que poderá cair de mais de 60% para entre 38% e 40% nos próximos anos. Este tópico sensibiliza as pessoas e as encoraja a direcionar suas economias para o mercado. Portanto, incentivos e literacia são igualmente importantes.
Embora se fale intensamente na necessidade de educar financeiramente, o que realmente falta? Acredito que os incentivos têm um papel crítico. Se nos concentrarmos apenas na literacia financeira, muitas pessoas, mesmo instruídas, continuarão a manter seu dinheiro em depósitos. Conheço diversas pessoas com alto nível de literacia financeira que ainda possuem grandes quantias em depósito.
É uma questão cultural? Não tenho certeza. Reluto em acreditar que os portugueses sejam fundamentalmente diferentes de outros povos. Famílias americanas, por exemplo, não investiam muito na bolsa em 1978, mas com a introdução do 401k, houve uma mudança significativa. Portanto, a ideia de que a percepção de risco é diferente ou que a literacia financeira é maior em lugares como o Kentucky, me suscita dúvidas. Precisamos ter benefícios que ajudem as pessoas e o país.
Observando as gerações, percebo diferenças na forma de encarar o risco? Há um debate sobre como os mais jovens investem em ativos diferentes, como criptomoedas. Compreendo porque alguns jovens façam isso, mas não consigo discernir o impacto em termos de volume. Um aspecto evidente, porém, é que ativos que deveriam facilitar o investimento, como fundos de investimento, têm se mostrado complicados para muitos. Os OICVM, que oferecem proteção ao investidor e dispersão de risco, são muitas vezes difíceis de subscrever. Isso leva os jovens a optarem por produtos mais acessíveis.
Os ativos digitais estão em ascensão, com gestoras estabelecidas tomando-os em consideração. Como o setor tradicional observa essa tendência? Devemos distinguir entre criptoativos e ativos garantidos por blockchain, pois são conceitos distintos. O blockchain, quando vinculado a ativos, oferece uma forma mais rápida e segura de transação, algo que o setor vê de forma positiva. Nossa associação já se envolveu em estudos para implementar isso, apesar dos custos, e há uma aceitação crescente.
Por outro lado, em relação a criptomoedas desprovidas de ativos subjacentes, mantenho uma postura cautelosa. Acredito que seja difícil entender o que impulsiona a demanda, especialmente considerando questões como lavagem de dinheiro. Existem muitos fatores que influenciam as cotações, e em muitos aspectos, isso se assemelha a um jogo de azar. Pessoalmente, sou cético em relação a essas questões, e percebo que o setor também adota uma postura semelhante.
A carga regulatória enfrentada pelo setor é excessiva? O peso regulatório na União Europeia é, de fato, excessivo, e por isso, está em andamento um esforço para identificar áreas onde é possível reduzir essa carga. Criamos produtos, como os fundos de investimento, para serem bons para os investidores, mas a complexidade na subscrição impede que muitos se envolvam. Essa questão não se limita aos investimentos, mas abrange muitos setores na UE. Acreditamos que este trabalho precisa ser feito em nível nacional, e temos supervisoras que compartilham dessa visão. O excesso de regulação está prejudicando nossa competitividade em relação a países como os Estados Unidos.
Estamos atualmente discutindo o Orçamento do Estado. Que mudanças seriam necessárias para tornar o investimento em fundos mais atraente? Três pontos são essenciais. Primeiro, os fundos de investimento deveriam ter o mesmo tratamento tributário que os seguros, permitindo uma redução de impostos após oito anos. Segundo, a transferência entre fundos deve ser isenta de tributação, para que o foco permaneça na estratégia de investimento, em vez de penalizar por mudanças necessárias. Por fim, é crucial desenvolver os pilares dois e três da segurança social, garantindo benefícios que incentivem o investimento em fundos de pensões sem que se esgotem rapidamente.
Além disso, a recomendação da Comissão Europeia sobre contas de investimento sugere um incentivo por meio de benefícios fiscais que diminuam a tributação em dividendos, juros ou ganhos de capital. Outro método inteligente é modelar a tributação sobre o patrimônio, como feito na Suécia, onde, ao simplificar as regras, milhares de pessoas foram atraídas para esse mercado, resultando até em um aumento na arrecadação.
Esses três pontos precisam ser priorizados pelo Governo.
Quais são as perspectivas para o final deste ano e o próximo? Estou otimista. Acredito que há boas chances de estabilidade e crescimento contínuo nos mercados. Não prevejo grandes quedas, nem no mercado americano nem no europeu, e a redução das taxas de juro também deve ajudar na estabilidade. Embora possa ocorrer uma correção no futuro, que é algo normal no mercado, espero que isso não aconteça em breve, pois, neste momento, estou otimista e confiante de que os mercados permanecerão tranquilos.





