Entre Suez e Ormuz: O Momento Americano
“Atualmente, os Estados Unidos podem perceber que não têm mais o domínio do cenário da mesma forma, não porque uma superpotência rival os tenha deslocado diretamente, mas porque o próprio mecanismo da hegemonia se tornou mais caro, contestado e menos eficaz.”
Anthony Eden possuía a postura de um estadista, a educação de um império e a convicção, hoje quase comovente, de que a Grã-Bretanha ainda podia agir como se o século XIX não tivesse terminado. Em 1956, quando Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, Eden interpretou o ato não apenas como uma afronta egípcia, mas como uma insolência histórica. Havia, no raciocínio de Londres, algo de profundo imperial e, ao mesmo tempo, anacrônico: a ideia de que um poder regional não tinha o direito de tocar em uma artéria que o velho centro considerava sua por natureza, hábito e hierarquia. A operação militar foi planejada, as forças mobilizadas e o cenário da determinação montado. Entretanto, bastou a pressão americana sobre a libra para revelar a verdade que os mapas já ocultavam: o Reino Unido ainda estava armado, mas já não governava.
Eden queria comportar-se como Churchill em um mundo que já era de Eisenhower. Donald Trump, com seu narcisismo estratégico e sua vulgaridade de vendedor transformado em César de resort, pode acabar fazendo algo semelhante. Não por semelhança de temperamento, pois Eden era um aristocrata melancólico e Trump um populista histriônico, mas por semelhança de erro. Ambos analisam uma crise internacional como se acreditassem que a força, por si só, restaura a autoridade. Ambos partem da convicção de que um adversário regional acabará se curvando quando confrontado com poder esmagador. Ambos confundem capacidade militar com controle político. E é exatamente aí que os impérios começam a perder a noção da realidade.
A analogia entre Suez e Ormuz pode parecer exagerada à primeira vista. O Reino Unido de 1956 era uma potência em declínio acelerado; os Estados Unidos de 2026 continuam a ser a maior potência militar do planeta. A libra estava vulnerável; o dólar, apesar das fissuras, ainda é a principal moeda de reserva internacional. Londres já atuava como um satélite relutante de Washington; Washington ainda possui bases, alianças, capacidade tecnológica e alcance global sem paralelo. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que o declínio de uma potência raramente se revela pela perda imediata de sua superioridade material. Começa antes, quando essa superioridade deixa de gerar resultados proporcionais, quando o custo de impor ordem cresce mais rapidamente que os dividendos estratégicos dela.
Foi isso que Suez revelou. A Grã-Bretanha ainda podia bombardear, desembarcar tropas, ocupar posições e exibir força. O que já não conseguia era transformar essa vantagem militar em domínio político duradouro. O problema não era a ausência de força, mas a erosão das condições que conferiam sentido estratégico ao uso da força. Uma economia debilitada, dependência financeira externa, legitimidade internacional frágil e, sobretudo, a emergência de um novo árbitro imperial que já não aceitava aventuras autônomas do velho aliado.
Em Ormuz, a questão é apresentada de forma distinta, mas não menos séria. O Irã não pode derrotar militarmente os Estados Unidos em sentido convencional. Não pode invadir, ocupar ou destruir o poder americano. Mas também não precisa. A grande ilusão das potências hegemônicas é supor que apenas a vitória clássica conta como vitória. Na verdade, muitas vezes basta sobreviver, desgastar, retardar, elevar custos, fragmentar vontades e demonstrar que nem todo o poder do mundo consegue resultar em capitulação. Para um império, a impossibilidade de transformar força em obediência já é, em si, uma derrota política.
O Estreito de Ormuz é um nome geográfico com peso civilizacional. Por ali passa cerca de um quinto do petróleo e gás consumidos no mundo. Não é apenas um corredor marítimo; é uma alavanca sistêmica. Quem consegue ameaçá-lo, mesmo sem fechá-lo completamente, interfere em preços, seguros, cadeias logísticas, nervosismo dos mercados e cálculos estratégicos das potências importadoras. O Irã sabe disso. Também entende que sua força não reside na paridade militar com os Estados Unidos ou com Israel, mas na capacidade de gerar instabilidade suficiente para tornar a vitória adversária politicamente tóxica e economicamente onerosa.
É aqui que a analogia com Suez ganha profundidade. O que decidiu a crise de 1956 não foi apenas a operação militar no Egito, mas o fato de Londres descobrir que já não controlava os fundamentos econômicos de sua própria projeção imperial. O império tinha navios, mas faltava-lhe moeda. Tinha vontade, mas não tinha autonomia. Hoje, Washington não está nessa posição exata, mas não é absurdo indagar até que ponto sua supremacia militar repousa sobre bases mais frágeis do que a retórica oficial admite. Uma dívida nacional colossal, déficits persistentes, fadiga estratégica após décadas de guerras inconclusivas, polarização interna, dependência de equilíbrios financeiros delicados e dispersão de recursos por diversos teatros simultâneos, da Europa Oriental ao Indo-Pacífico. Nada disso significa um colapso iminente, mas indica que a margem para aventuras imperiais sem custo estrutural encolheu.
Há ainda um elemento que torna o presente mais instável do que em 1956. Na crise de Suez, o sistema internacional era bipolar. Existiam dois centros de gravidade e uma hierarquia relativamente clara. Hoje, a ordem é mais difusa, fragmentada e multipolar. A erosão da hegemonia americana não implica automaticamente a ascensão ordenada de um substituto. Não há um novo império pronto para assumir o manto deixado pelo antigo. Há, por outro lado, uma pluralidade de atores, regionais e globais, dispostos a explorar a diminuição da capacidade americana de disciplinar o espaço internacional. Isso torna cada recuo de Washington menos dramaticamente simbólico, mas potencialmente mais corrosivo na prática.
Trump, que gosta de apresentar ultimatos como se estivesse negociando um cassino falido em Atlantic City, partiu de um erro recorrente na política externa americana: a crença de que o adversário pensa segundo o mesmo cálculo de custo-benefício que predomina em Washington. Mas Teerã não vê o tempo da mesma forma. Regimes sob pressão prolongada desenvolvem uma paciência diferente, uma tolerância ao sofrimento distinta e uma outra relação com a ideia de sobrevivência. É por isso que tantas guerras americanas começam com a promessa de uma resolução rápida e acabam revelando a incapacidade americana de fechar politicamente o que abriu militarmente.
A ironia histórica é cruel. Em 1956, foram os Estados Unidos que empurraram o Reino Unido para fora do palco imperial do Oriente Médio. Hoje, os Estados Unidos podem descobrir que o palco já não lhes pertence da mesma forma, não por uma superpotência rival tê-los deslocado diretamente, mas porque o próprio mecanismo da hegemonia se tornou mais caro, contestado e menos eficaz. O império americano não cairá amanhã. Não haverá um momento teatral em que a bandeira desça e alguém anuncie o fim. Impérios sérios não terminam assim. Acabam por desgaste, por incapacidade cumulativa, por perda de conversão entre força e resultado.
Suez foi o momento em que Londres percebeu que já não podia agir sem autorização. Ormuz pode ser o momento em que Washington toma consciência de que já não pode impor sem incorrer em altos custos. E quando uma potência chega a esse ponto, o problema deixa de ser apenas militar. Torna-se civilizacional. Porque um império começa verdadeiramente a morrer quando continua a falar a linguagem da ordem, mas já só consegue produzir desordem.




