Economia

Discurso de Von der Leyen no Estado da União: Aplausos e Apupos

Discurso de Von der Leyen no Estado da União: Aplausos e Apupos

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fez na quarta-feira seu primeiro discurso sobre o Estado da União durante o segundo mandato, no qual enfrenta críticas relacionadas ao acordo comercial com os Estados Unidos e sua posição em relação a Gaza. O discurso foi marcado por um incidente inesperado: na madrugada, a Polônia foi colocada em estado de alerta após suas forças armadas derrubarem “objetos hostis” que invadiram seu espaço aéreo.

Em resposta ao incidente, von der Leyen afirmou: “a Europa vai defender cada centímetro do seu território”.

Antes de abordar temas relacionados ao comércio, tecnologia, futuro e economia, Ursula von der Leyen dedicou parte significativa de seu discurso para discutir os desafios geopolíticos. Sua intervenção rendeu muitos aplausos, mas também algumas interrupções, especialmente ao comentar sobre Gaza, enfatizando que a Europa precisa, mais do que nunca, se unir ou “re-unir”.

“A Europa está numa luta. Numa luta por um continente completo e em paz, por uma Europa livre e independente, uma luta pelos nossos valores e as nossas democracias, uma luta pela nossa liberdade e capacidade de decidirmos o nosso próprio destino”, disse ela no início do discurso.

“Não se deixem enganar: esta é uma luta pelo nosso futuro”, reiterou, explicando que hesitou em começar o discurso com uma avaliação tão “rígida”, pois a União Europeia é essencialmente “um projeto de paz”. Contudo, ela alertou que “não podemos, simplesmente, esperar que esta tempestade passe”.

“Este verão mostrou-nos que não há espaço nem tempo para nostalgia”, defendeu, assegurando que “as linhas de batalha” da “nova ordem mundial” estão sendo delineadas agora e se baseiam no poder. “Por isso, sim, a Europa tem de lutar“, enfatizou, ressaltando que a situação atual faz com que diversas potências ou não tenham certeza sobre a UE ou sejam “abertamente hostis”. Von der Leyen comentou que vivemos “num mundo de ambições imperialistas e guerras imperialistas”, onde as dependências estão sendo “impiedosamente usadas como arma”.

“É por isso que uma nova Europa deve emergir”, afirmou, pedindo que este seja o momento para a “independência da Europa” e a necessidade da União Europeia garantir “a sua própria segurança”.

Ela questionou: “A pergunta central para nós hoje é simples: a Europa tem estômago para lutar?”, convocando à “união entre os Estados-membros, instituições e forças democráticas”. Durante seu discurso, mencionou uma família ucraniana presente no hemiciclo para apoiar a necessidade da Europa de combater “a definição de diplomacia da Rússia”, no contexto da “Coligação de Vontades”.

Na nova “guerra de drones”, a UE inicia agora uma “aliança de drones com a Ucrânia”, uma declaração feita logo após a violação do espaço aéreo polonês. Referindo-se ao incidente na Polônia, von der Leyen classificou-o como uma violação “sem precedentes” do espaço aéreo europeu e um ataque “imprudente”.

“A Europa está solidária com a Polónia”, comentou, gerando aplausos entre os presentes. Ela estabeleceu que, se “a mensagem de Putin é clara”, a da Europa também deve ser: “Esta guerra é da Rússia. A Rússia deve pagar por ela”, indicou, explicando que se está trabalhando em uma “nova solução” para utilizar os ativos russos nas mãos da Europa para a reparação da Ucrânia.

Continuando em francês, von der Leyen disse: “A guerra económica de Putin continuará mesmo que a guerra termine”, destacando a importância de garantir a segurança da Europa em todas as frentes.

“A Europa vai defender cada centímetro do seu território”, reiterou. Retornando ao inglês, ela reforçou que lutar agora é defender a liberdade de “escolher o nosso próprio destino” e que os ideais europeus, nascidos da queda do Muro de Berlim em 1989, são mais relevantes do que nunca, junto com a Ucrânia e outros que desejem se juntar. “Vamos trazer os futuros membros para a nossa União”, afirmou, apoiando “reformas” e “integrando-os no mercado único”.

Ela sublinhou a necessidade de acelerar o processo de adesão baseado no mérito, enfatizando que apenas uma “Europa unida” – ou “reunida”, como destacou – pode ser independente. “Uma união maior e mais forte é uma segurança para todos nós”, acrescentou, referindo-se à Ucrânia, Moldávia e Balcãs e assegurando que o futuro destas nações passa pela União. “Vamos fazer acontecer juntos a próxima reunificação da Europa”.

A situação em Gaza também foi abordada no discurso da presidente da Comissão Europeia. Em um momento em que “a consciência do mundo” é afetada pelas “imagens catastróficas” de pessoas “mortas enquanto imploram por comida” e de “mães segurando bebês sem vida”, von der Leyen destacou o que ocorre na Faixa de Gaza como mais uma evidência da “mudança inaceitável” nas relações internacionais recentes.

“Quero deixar uma mensagem muito clara: fome criada por mão humana nunca pode ser uma arma de guerra”. “Pelo bem das crianças e da humanidade, isso tem de parar”, reiterou, recebendo aplausos.

Para von der Leyen, não há dúvidas de que vários ministros israelitas estão tentando “minar” a solução de dois Estados, algo que “não podemos permitir”. Nesse sentido, ela argumentou que “a Europa precisa de fazer mais”, lamentando a falta de uma maioria que aprove medidas mais proeminentes nesta direção, e destacou que alguns membros da UE avançaram sozinhos.

“Não nos podemos dar ao luxo de ficar paralisados”, enfatizou. Ao apresentar “todas as medidas” que a Comissão Europeia pode tomar “por conta própria”, a Europa decidiu colocar “em pausa” o “apoio bilateral a Israel”. “Vamos interromper todos os pagamentos nesta área que não afetem a sociedade civil israelita”, explicou, seguindo com propostas de sanções aos ministros “extremistas” de Netanyahu e a suspensão parcial do “acordo de associação em questões comerciais”. Essas propostas geraram reações mistas na assembleia, com aplausos e apupos, que von der Leyen não ignorou.

“Estou ciente de que será difícil encontrar maiorias”, disse, ressaltando que, quando as medidas parecerem “demasiado” para alguns e “muito pouco” para outros, cada parte deve lembrar sua própria “responsabilidade”.

Um grupo de “doadores para a Palestina” será formado em breve, visando ajudar na reconstrução de Gaza, assegurou, em um “esforço internacional com parceiros na região” para garantir que o que a Europa “sempre defendeu”, uma “solução de dois Estados”, de fato se concretize.

Após iniciar, em dezembro passado, suas funções como líder do executivo comunitário por mais um mandato de cinco anos, Ursula von der Leyen proferiu, em Estrasburgo, seu discurso anual diante dos eurodeputados, que foi seguido por um debate.

Anteriormente, Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, também falou sobre “tempos sem precedentes”, enfatizando que a Europa precisa de “claridade e resolução”.

“Precisamos de uma Europa que se responsabilize pela sua segurança”, admitiu Metsola. “Precisamos de uma Europa onde as ruas sejam seguras para os nossos filhos e que defenda os valores democráticos que nos definem”, acrescentou, em um discurso proferido antes do de von der Leyen.

“Quando o mundo parece estar a arder, com a agressão russa à Ucrânia e a situação horrível em Gaza, este Parlamento e as pessoas que representa estão ansiosas para saber como a Europa pode avançar com ideias novas e ousadas”, concluiu, antes de passar a palavra à presidente da Comissão Europeia.

O discurso sobre o estado da União, realizado anualmente perante o Parlamento Europeu, é uma oportunidade para definir prioridades para a União no ano seguinte e anunciar novas iniciativas, após uma reflexão sobre o ano que passou.

[Notícia atualizada às 10h36 de 10 de setembro de 2025 com mais declarações de Ursula von der Leyen]

Pat Pereira

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