Economia

Como os Imigrantes Sustentam o Emprego em Portugal

Como os Imigrantes Sustentam o Emprego em Portugal

Em 2025, havia 1,13 milhões de estrangeiros registados na Segurança Social, tanto como trabalhadores por conta de outrem quanto como trabalhadores independentes, representando 17,6% do emprego por conta de outrem.

O crescimento do emprego em Portugal nos últimos anos teve um protagonista discreto: os trabalhadores estrangeiros. Apesar de continuarem a aumentar, o seu contributo começou a desacelerar em 2025, levantando questões sobre o futuro da economia de um país marcado pelo envelhecimento demográfico e pela escassez de mão-de-obra.

O mercado de trabalho português enfrenta um paradoxo. Enquanto a atividade económica diminui — com o PIB a crescer a ritmos mais moderados até 2028 —, o emprego manteve-se resiliente, alcançando máximos recentes. Essa dinâmica é impulsionada por um fator estrutural: o papel cada vez maior dos trabalhadores estrangeiros, que têm compensado a redução da população ativa nacional, segundo o Boletim Económico de março de 2026 do Banco de Portugal.

Fonte: Banco de Portugal

Segundo o boletim, os trabalhadores estrangeiros representaram 17,6% do emprego por conta de outrem nos primeiros três trimestres de 2025, um aumento significativo em relação aos 5,9% registrados em 2019. Esse crescimento reflete não apenas a atratividade recente da economia portuguesa, mas também limitações estruturais na oferta interna de trabalho, em um contexto de envelhecimento demográfico.

Menos imigração, menos crescimento do emprego

Apesar do aumento contínuo, começam a surgir sinais de desaceleração. De acordo com o Banco de Portugal, o contributo dos trabalhadores estrangeiros para a variação do emprego diminuiu em 2025, refletindo a desaceleração dos fluxos migratórios após os picos observados em 2022 e 2023.

O boletim aponta que essa evolução está relacionada a mudanças legislativas nas regras de imigração e a um menor dinamismo na atividade económica, especialmente nos setores que exigem mais mão-de-obra. O contributo dos trabalhadores estrangeiros caiu de 3,0 pontos percentuais em 2024 para 1,9 pontos percentuais em 2025.

Entre as diversas nacionalidades, observam-se mudanças significativas. Segundo o Banco de Portugal, os trabalhadores provenientes do Sul da Ásia — como Índia, Bangladesh, Nepal e Paquistão — apresentaram a maior desaceleração, com seu contributo reduzindo de 0,9 para 0,3 pontos percentuais. Além disso, os trabalhadores brasileiros também viram sua participação relativa diminuir.

Por outro lado, conforme o mesmo relatório, os trabalhadores provenientes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) aumentaram seu contributo para o crescimento do emprego.

Fonte: Banco de Portugal

Setores dependentes de mão-de-obra estrangeira

O impacto da imigração é particularmente evidente em setores com salários médios mais baixos e maior intensidade de trabalho. Segundo o Banco de Portugal, áreas como alojamento e restauração, agricultura e pescas, comércio e indústria destacam-se como setores onde a contribuição dos trabalhadores estrangeiros foi crucial — e onde a recente desaceleração se fez sentir de maneira mais acentuada.

O relatório indica que, em 2025, a contribuição desses setores para o crescimento do emprego diminuiu, refletindo tanto a menor entrada de trabalhadores estrangeiros quanto a desaceleração da atividade económica. Em contrapartida, setores como administração pública, saúde e educação — mais dependentes de trabalhadores nacionais — aumentaram sua contribuição.

Um desafio estrutural: menos pessoas, mais produtividade

A análise do Banco de Portugal aponta para um desafio estrutural: o crescimento do emprego em Portugal tem sido, em grande medida, sustentado pela imigração. No entanto, as projeções indicam uma redução dos fluxos migratórios nos próximos anos, o que deve resultar em uma desaceleração do crescimento do emprego.

Conforme o Boletim Económico de março de 2026, o crescimento do emprego deve desacelerar progressivamente até 2028, em um contexto de menores fluxos migratórios e de uma evolução demográfica desfavorável.

Nesse cenário, o banco central enfatiza que o crescimento económico precisará se basear cada vez mais em ganhos de produtividade. Isso implica aumentar o investimento em qualificação, inovação, digitalização e automação, bem como aproveitar o potencial da inteligência artificial.

Mais do que uma tendência conjuntural, a contribuição dos trabalhadores estrangeiros é um elemento central da economia portuguesa contemporânea. Segundo o Banco de Portugal, a sustentabilidade do crescimento e dos salários reais dependerá, a longo prazo, da capacidade de transitar de um modelo baseado na quantidade de trabalho para um fundamentado na produtividade.

Pat Pereira

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