Cientistas descobrem interruptor oculto no cérebro que indica quando parar de comer
Por anos, os cientistas acreditaram que a resposta estava centrada quase inteiramente nos neurônios, as principais células sinalizadoras do cérebro. No entanto, novas pesquisas estão desafiando essa ideia, apontando para um sistema mais complexo que envolve outros tipos de células cerebrais.
Um estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences em 6 de abril de 2026, mostra que os astrócitos, que há muito tempo são considerados células de suporte, podem desempenhar um papel muito mais ativo na regulação do apetite do que se acreditava anteriormente.
Pesquisadores da Universidade de Concepción, no Chile, em colaboração com colegas da Universidade de Maryland, descobriram um caminho de sinalização até então desconhecido no hipotálamo, a região do cérebro responsável por controlar a fome e a saciedade. As descobertas podem eventualmente ajudar os cientistas a desenvolver novos tratamentos para condições como obesidade e distúrbios alimentares.
“As pessoas tendem a pensar imediatamente em neurônios quando pensam em como o cérebro funciona”, disse Ricardo Araneda, professor no Departamento de Biologia da UMD e autor correspondente do estudo. “Mas estamos descobrindo que os astrócitos, que costumávamos pensar apenas como células de suporte secundárias, também estão participando da maneira como nosso cérebro regula a quantidade que comemos. Esta pesquisa muda a nossa percepção sobre esses circuitos de comunicação.”
Como o Cérebro Detecta Glicose Após a Alimentação
O processo começa com células cerebrais especializadas conhecidas como tanycitos. Essas células revestem uma cavidade preenchida por líquido no fundo do cérebro e monitoram a glicose (o açúcar que alimenta o corpo) enquanto ela se move pelo líquido cefalorraquidiano.
Após uma refeição, os níveis de glicose aumentam. Os tanycitos respondem processando esse açúcar e liberando lactato, um subproduto metabólico, em tecidos cerebrais próximos. Esse lactato então interage com os astrócitos vizinhos, desencadeando a próxima fase da comunicação.
“Os pesquisadores costumavam pensar que o lactato produzido pelos tanycitos ‘falava’ diretamente com os neurônios envolvidos no controle do apetite”, explicou Araneda. “Mas descobrimos que havia um intermediário inesperado nessa conversa, os astrócitos.”
Os Astrócitos Atuam Como Mensageiros Chave no Controle do Apetite
Os astrócitos estão entre os tipos de células mais comuns no cérebro e tradicionalmente foram vistos como células de suporte que auxiliam os neurônios. No entanto, este estudo mostra que eles podem assumir um papel de sinalização mais direto.
Os pesquisadores descobriram que os astrócitos possuem um receptor chamado HCAR1, que detecta lactato. Quando o lactato se liga a esse receptor, os astrócitos são ativados e liberam glutamato, um mensageiro químico. Esse sinal é então transmitido aos neurônios que suprimem o apetite, levando à sensação de saciedade.
“O que nos surpreendeu foi a complexidade disso”, disse Araneda. “Para simplificar, descobrimos que os tanycitos ‘comunicam-se’ com os astrócitos, e então os astrócitos ‘comunicam-se’ com os neurônios.”
Uma Reação em Cadeia Que Se Espalha pelo Cérebro
Em um experimento, os cientistas introduziram glicose em um único tanycito enquanto observavam os astrócitos próximos. Mesmo essa mudança localizada desencadeou atividade em múltiplos astrócitos ao redor, mostrando como os sinais podem se espalhar pela rede do cérebro.
“Também notamos um efeito duplo, por assim dizer,” observou Araneda. “O hipotálamo contém duas populações opostas de neurônios: aqueles que promovem a fome e aqueles que a suprimem. Descobrimos que pode ser possível que o lactato atue em ambos simultaneamente — ativando os neurônios da saciedade através dos astrócitos, enquanto potencialmente silencia os neurônios da fome por uma via mais direta.”
O Que Essa Descoberta Pode Significar para a Obesidade e Distúrbios Alimentares
Embora a pesquisa tenha sido realizada em modelos animais, tanto os tanycitos quanto os astrócitos existem em todos os mamíferos, incluindo os humanos. Isso sugere que o mesmo mecanismo pode estar em funcionamento nas pessoas.
A próxima etapa para a equipe de pesquisa é testar se a alteração do receptor HCAR1 nos astrócitos pode influenciar o comportamento alimentar. Esse trabalho é essencial antes que quaisquer terapias potenciais possam ser desenvolvidas.
Atualmente, nenhum medicamento visa diretamente esse caminho. No entanto, Araneda acredita que isso pode se tornar uma nova direção promissora para tratar condições relacionadas ao apetite.
“Agora temos um mecanismo diferente onde podemos direcionar os astrócitos ou especificamente esse receptor HCAR1,” acrescentou. “Seria um alvo novo que pode complementar terapias existentes como Ozempic, por exemplo, e melhorar a vida de muitos que sofrem de obesidade e outras condições relacionadas ao apetite.”
Uma Colaboração Científica de Uma Década
Essas descobertas são o resultado de quase dez anos de trabalho colaborativo entre o laboratório de Araneda na UMD e o laboratório de María de los Ángeles García-Robles na Universidade de Concepción, a principal investigadora do projeto. O autor principal do estudo, Sergio López, é um estudante de doutorado coorientado por ambos os pesquisadores que realizou experimentos-chave durante uma visita de pesquisa de oito meses à UMD.
O artigo, “O lactato derivado dos tanycitos ativa o HCAR1 astrocytário para modular a sinalização glutamatérgica e a excitabilidade dos neurônios POMC,” foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences em 6 de abril de 2026.
Essa pesquisa foi financiada pelo Fundo Nacional do Chile para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico, pelo Instituto Milênio de Neurociência em Valparaíso e pelo U.S. National Institutes of Health (Prêmio No. R01AG088147A). Este artigo não reflete necessariamente as opiniões dessas organizações.





