Bancos Ignoram Novas Contas de Investimento
A Comissão Europeia recomendou aos Estados-membros, no final de setembro, a adoção de contas de investimento de fácil acesso, com incentivos fiscais e a partir de apenas 10 euros. Qual será o impacto nas remunerações das poupanças tradicionais? Os bancos informam ao Jornal Económico que não consideram a questão uma preocupação e aguardam uma decisão do Governo.
Quando Maria Luís Albuquerque, comissária europeia para os Serviços Financeiros, apresentou a proposta de contas de investimento “descomplicadas” e acessíveis, ficou claro que a banca não estaria isolada na gestão desses novos fluxos financeiros.
A iniciativa, que pode ou não ser seguida pelos Estados-membros, tem como objetivo incentivar os europeus a investir seus depósitos em produtos mais rentáveis, prevendo que haja diversos prestadores de serviços financeiros autorizados, incluindo sociedades de investimento.
Estabelece ainda que as contas devem ser “simples, fiáveis e de fácil acesso para os utilizadores”; devem existir incentivos fiscais “simples e bem direcionados”; e que os pequenos investidores deverão ser capazes de abrir várias contas, sem arcar com comissões excessivas.
Segundo Vinay Pranjivan, economista da DECO, essas medidas “podem incentivar os bancos a remunerar melhor os depósitos a prazo para evitar a saída dos clientes”. Ele observa que os bancos podem ser levados “a criar produtos para reter esses valores”, já que, apesar de se afirmar que em Portugal há um excesso de liquidez, “não é do interesse dos bancos uma fuga dos depósitos”.
Por outro lado, o economista João Duque considera que esse excesso de liquidez será suficiente para evitar qualquer reação. Ele acredita que “faria sentido [uma reação] se houvesse uma quantidade significativa que afetasse dois ou três grandes players com dificuldades em cumprir os rácios de liquidez”, mas acredita que isso não ocorrerá, pois “a liquidez do sistema financeiro é muito boa”.
O Jornal Económico buscou a opinião dos principais bancos nacionais sobre se irão tentar reter clientes com melhores remunerações caso Portugal siga a recomendação de Maria Luís Albuquerque.
“Nós não seguramos clientes no BCP”, afirma o CEO Miguel Maya. “Esforçamo-nos para conquistar e merecer sua preferência, e é isso que vamos continuar a fazer”, acrescentou o líder do maior banco privado português, que considera que “todos os produtos são bem-vindos”. Embora não tenha respondido diretamente sobre o impacto nos depósitos, Miguel Maya destaca que o banco está confortável com a concorrência: “Isso nos motiva a inovar constantemente para servir melhor os clientes”, enfatiza.
Assim como no BCP, outros bancos, por ora, demonstram satisfação com a medida, sem expectativa de que a iniciativa europeia afete os depósitos.
“Não consideramos que exista qualquer relação que possa ser estabelecida entre este projeto da União Europeia e o nível da remuneração dos depósitos”, responde João Paixão Moreira, administrador do Novobanco responsável pelo retalho comercial. Ele ressalta que as remunerações dependem, fundamentalmente, do nível das taxas de juro praticadas no mercado interbancário (Euribor, Libor), acrescentando que “as contas de investimento e os depósitos a prazo não são produtos substitutivos”.
A Caixa Geral de Depósitos (CGD), por meio de uma fonte oficial, também minimiza a questão, enfatizando que “a evolução dos depósitos e da sua remuneração continuará a depender de várias variáveis, incluindo a taxa de poupança e a evolução das taxas de juro de mercado”.
João Paixão Moreira observa que vê “com bons olhos as políticas que promovem a dinamização do mercado de capitais e a diversificação de produtos de poupança e investimento” e que, portanto, “não se deve temer qualquer substituição de depósitos a prazo”. O Chief Commercial Officer Retail do Novobanco vai além, sublinhando que “esta iniciativa é extremamente importante para a captação significativa de capital para as empresas”, promovendo o mercado de capitais europeu e “beneficiando ao mesmo tempo os pequenos aforradores”. Para ele, este instrumento pode ajudar “a estancar tanto o declínio econômico-financeiro europeu quanto o empobrecimento dos cidadãos poupadores”.
De forma semelhante, a Caixa Geral de Depósitos defende que “a promoção da poupança de longo prazo é um bom princípio e que a diversificação de opções de investimento é fundamental para mitigar o risco” dos poupadores.
Bancos aguardam decisões
De qualquer forma, apesar de Maria Luís Albuquerque prometer pressão sobre os Estados-membros, ainda não é certo que a medida seja adotada em Portugal. A banca permanece à espera de uma definição.
O banco público “aguarda as decisões do Governo em relação a essas recomendações, especialmente no que diz respeito aos incentivos fiscais e à simplificação dos processos relacionados, reafirmando seu compromisso com a promoção da poupança de longo prazo, facilitação do acesso ao mercado de capitais e melhoria da literacia financeira dos portugueses”, informa uma fonte oficial do banco liderado por Paulo Macedo.
João Paixão Moreira também observa que “a adoção dessas novas soluções de investimento dependerá das regras que forem estabelecidas” e destaca que “isso pode implicar custos de adaptação para os bancos”.
O Chief Commercial Officer Retail do Novobanco alerta que “um dos pilares do sucesso depende, por exemplo, de um regime fiscal favorável e comparável, pelo menos, ao dos produtos de poupança a longo prazo ou destinados à reforma”.
O Jornal Económico também tentou obter uma resposta do BPI, mas o banco optou por não comentar.




