Saúde

Cientistas descobrem que bactérias intestinais injetam proteínas que controlam o sistema imunológico

Cientistas descobrem que bactérias intestinais injetam proteínas que controlam o sistema imunológico

Cientistas descobriram uma maneira surpreendente de como as bactérias intestinais interagem com o corpo humano. Certos micróbios que habitam o sistema digestivo podem enviar proteínas diretamente para as células humanas, influenciando ativamente o comportamento do sistema imunológico. A pesquisa, liderada pelo Helmholtz Munich com contribuições da Ludwig Maximilians University (LMU), da Aix Marseille University, do Inserm e de outros colaboradores internacionais, revela uma forma de comunicação até então desconhecida entre bactérias e células humanas. Essa descoberta oferece novas perspectivas sobre como o microbioma intestinal afeta a saúde e pode ajudar a explicar seu papel em condições como a doença de Crohn.

Por anos, pesquisadores associaram o microbioma intestinal a distúrbios imunológicos, metabólicos e inflamatórios. No entanto, a maior parte das evidências se baseou em correlações e os processos biológicos por trás dessas ligações permaneceram obscuros.

“Nosso objetivo era caracterizar melhor alguns dos processos subjacentes de como as bactérias intestinais afetam a biologia humana,” diz Veronika Young, primeira autora do estudo junto com Bushra Dohai. “Ao mapear sistematicamente as interações diretas entre proteínas bacterianas e células humanas, agora podemos sugerir mecanismos moleculares por trás dessas associações.”

Sistemas de Injeção Ocultos em Bactérias Intestinais “Amigáveis”

A equipe descobriu que muitas bactérias intestinais comuns e não nocivas possuem sistemas de secreção do tipo III. Essas são estruturas minúsculas, semelhantes a seringas, que permitem que as bactérias injetem suas próprias proteínas diretamente nas células humanas. Anteriormente, acreditava-se que esses sistemas eram limitados a bactérias patogênicas, como a Salmonella.

“Isso muda fundamentalmente nossa visão sobre as bactérias comensais,” afirma o Prof. Pascal Falter-Braun, diretor do Instituto de Biologia de Redes do Helmholtz Munich e autor correspondente do estudo. “Isso mostra que essas bactérias não patogênicas não são apenas residentes passivos, mas podem manipular ativamente as células humanas ao injetar suas proteínas em nossas células.”

Mapeando Como as Bactérias Intestinais Influenciam as Células Humanas

Para explorar o que acontece após a entrada dessas proteínas nas células humanas, os pesquisadores mapearam mais de mil interações entre proteínas efetoras bacterianas e proteínas humanas. Essa ampla rede revelou que as proteínas bacterianas tendem a atacar vias envolvidas na regulação imunológica e no metabolismo.

Experimentos adicionais confirmaram que essas proteínas podem influenciar sistemas de sinalização imunológica chave, incluindo NF-κB e respostas de citocinas. As citocinas são moléculas sinalizadoras que ajudam a coordenar a atividade imunológica e prevenir reações excessivas que poderiam levar a doenças autoimunes. Por exemplo, bloquear a citocina Fator de Necrose Tumoral (TNF) é um tratamento comum para a doença de Crohn, uma condição autoimune que afeta o intestino.

Possível Ligação com a Doença de Crohn

Os pesquisadores também descobriram que os genes responsáveis por essas proteínas efetoras bacterianas são mais comuns nos microbiomas intestinais de pessoas com a doença de Crohn. Essa descoberta sugere que a transferência direta de proteínas de bactérias para células humanas pode contribuir para a inflamação intestinal a longo prazo. Também fornece uma possível explicação para observações anteriores que conectam mudanças no microbioma à doença.

Reconsiderando as Interações entre Microbioma e Sistema Imunológico

Ao identificar essa camada de interação entre as bactérias intestinais e o sistema imunológico, o estudo desloca o campo de simples associações para uma compreensão de causa e efeito. Também levanta novas questões sobre a origem desses sistemas de injeção, incluindo se eles evoluíram inicialmente para apoiar a coexistência com o hospedeiro ou foram posteriormente adaptados por bactérias nocivas.

A pesquisa futura se concentrará em como proteínas bacterianas específicas interagem com células humanas em diferentes tecidos e contextos de doenças. Esses insights podem, eventualmente, levar a abordagens mais direcionadas para a prevenção e tratamento de doenças.

Pat Pereira

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