Piranha: Uma Loja de Música que Resiste há 30 Anos no Porto com um Nicho Fiel
Ao fundo da galeria comercial na rua de Júlio Dinis, ouvem-se os Sons dos Sisters of Mercy, trazidos por Armando Marques, funcionário da Piranha. Miguel Teixeira chega para partilhar a história do seu local de trabalho, que é também a sua paixão.
A Piranha, loja de música que celebra 30 anos este mês, sobrevive no Porto graças a um pequeno grupo de clientes que é extremamente fiel, conforme revelou Miguel Teixeira, proprietário do espaço situado no Centro Comercial Itália.
Miguel Teixeira, que fundou a loja em 1995, recorda que inicialmente não estava sozinho, tendo trabalhado com outros sócios que eventualmente saíram. A loja chamava-se originalmente Carbono, numa parceria com uma loja de Lisboa.
Na altura, Miguel era um ávido consumidor da Carbono e frequentemente viajaba a Lisboa para adquirir música. A ideia de criar uma loja no Porto surgiu como uma espécie de filial da Carbono.
No entanto, as raízes da Piranha vão ainda mais fundo, ligando-se ao tempo das ‘fanzines’, especialmente a Peresgótika de Miguel, e à sua colaboração com a rádio Nova Era, que era uma rádio pirata, no final dos anos 80.
“Fui convidado a ter um programa, apesar de nunca ter sido locutor; tive que aprender. Comecei então a fazer vários programas, sendo o mais duradouro e conhecido ‘O Arco do Cego’, que durou mais de 10 anos”, conta Miguel.
Devido à sua atividade na cena musical, Miguel recebia bastante material promocional numa época em que a Internet era ainda uma utopia em Portugal. “Tinha contato com uma editora na Suíça que me oferecia um catálogo com centenas de concertos gravados; trocávamos música sem dinheiro envolvido”, recorda.
Com a dificuldade de encontrar música no mercado, Miguel começou a questionar. “Por que não faço eu mesmo isto, se é isso que quero e gosto?”, ponderou.
Assim nasceu a Carbono no Porto, que manteve o nome por alguns anos até mudar para Piranha, pois a abordagem comercial entre as lojas do Porto e Lisboa não era a mesma.
“Eles tinham uma visão de negócio, enquanto nós éramos mais ‘naïf’ nesse aspecto. Queríamos ser alternativos e explorar um nicho específico, para não sermos apenas mais uma loja”, explica.
A loja floresceu durante a transição do vinil para o CD, refletindo isso ainda hoje. Embora muitas lojas tenham se concentrado no vinil na última década e meia, a Piranha mantém-se fiel à sua identidade original, com foco no CD, mas aberta a todos os formatos.
O auge do CD na Piranha foi impressionante durante cerca de 10 anos. “Chegávamos a ter momentos em que precisávamos de uma pessoa na porta, porque a loja é pequena, e saíam duas pessoas enquanto duas entravam”, lembra.
A chegada da Internet e a pirataria foram um choque para a Piranha, que agora depende tanto de sua clientela fiel quanto de vendas online.
“Ainda somos sustentáveis, caso contrário não estaríamos aqui há 30 anos. Sabemos que operamos num nicho pequeno, mas felizmente é um nicho muito leal”, comenta Miguel, referindo-se a uma clientela que aprecia a música física e de qualidade.
Na Piranha, os géneros predominantes incluem o ‘post-punk’, ‘punk’ e gótico, além das várias vertentes do metal, e mais recentemente, subgéneros como ‘darkwave’ e ‘synthpop’.
Para celebrar os 30 anos, a Piranha organizou o lançamento de um livro sobre metal intitulado ‘A Fúria do Céu’ e lançou o novo álbum da banda portuguesa Radiant Though.
Em 2026, está prevista uma exposição chamada “30 anos, 30 álbuns”, um projeto pessoal que destaca álbuns significativos, com as capas a serem exibidas em frente à loja.
Além disso, a Piranha planeja realizar um encontro com a banda turca She Past Away, um dos principais representantes do ‘darkwave’ e ‘post-punk’ atual, que se apresentará no Porto no dia 23 de janeiro.





